os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

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Um pensamento sobre “os ombros suportam o mundo

  1. do mesmo velhinho:

    O novo homem

    O homem será feito
    em laboratório.
    Será tão perfeito
    como no antigório.
    Rirá como gente,
    beberá cerveja
    deliciadamente.
    Caçará narceja
    e bicho do mato.
    Jogará no bicho,
    tirará retrato
    com o maior capricho.
    Usará bermuda
    e gola roulée.
    Queimará arruda
    indo ao canjerê,
    e do não-objeto
    fará escultura.
    Será neoconcreto
    se houver censura.
    Ganhará dinheiro
    e muitos diplomas,
    fino cavalheiro
    em noventa idiomas.
    Chegará a Marte
    em seu cavalinho
    de ir a toda parte
    mesmo sem caminho.
    O homem será feito
    em laboratório,
    muito mais perfeito
    do que no antigório.
    Dispensa-se amor,
    ternura ou desejo.
    Seja como flor
    (até num bocejo)
    salta da retorta
    um senhor garoto.
    Vai abrindo a porta
    com riso maroto:
    “Nove meses, eu?
    Nem nove minutos.”
    Quem já conheceu
    melhores produtos?
    A dor não preside
    sua gestação.
    Seu nascer elide
    o sonho e a aflição.
    Nascerá bonito?
    Corpo bem talhado?
    Claro: não é mito,
    é planificado.
    Nele, tudo exato,
    medido, bem-posto:
    o justo formato,
    o standard do rosto.
    Duzentos modelos,
    todos atraentes.
    (Escolher, ao vê-los,
    nossos descendentes.)
    Quer um sábio? Peça.
    Ministro? Encomende.
    Uma ficha impressa
    a todos atende.
    Perdão: acabou-se
    a época dos pais.
    Quem comia doce
    já não come mais.
    Não chame de filho
    este ser diverso
    que pisa o ladrilho
    de outro universo.
    Sua independência
    é total: sem marca
    de família, vence
    a lei do patriarca.
    Liberto da herança
    de sangue ou de afeto,
    desconhece a aliança
    de avô com seu neto.
    Pai: macromolécula;
    mãe: tubo de ensaio
    e, per omnia secula,
    livre, papagaio,
    sem memória e sexo,
    feliz, por que não?
    pois rompeu o nexo
    da velha Criação,
    eis que o homem feito
    em laboratório
    sem qualquer defeito
    como no antigório,
    acabou com o Homem.
    Bem feito.

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