em qualquer lugar

miacouto01.jpgUm rio chamado tempo, uma casa chamada terra, livro do moçambicano Mia Couto que vou lendo agora, é desses que, no modo de narrar os fatos, descrever as pessoas, lugares e tramas, amplia as margens e possibilidades da própria língua. Não é à tôa que Mia Couto é situado pela crítica entre Guimarães Rosa e José Saramago.

Veja nesse trecho como ele trata o desprezo que políticos contemporâneos, de qualquer lugar, inspiram nas pessoas comuns:

“Cruzamo-nos com um luxuoso automóvel enterrado no areal. Quem traria viatura da cidade para uma ilha sem estrada?

Olha, é o Tio Ultímio! – e acenam.

Meu Tio Ultímio, todos sabem, é gente grande na capital, despende negócios e vai politicando consoante as conveniências. A política é a arte de mentir tão mal que só pode ser desmentida por outros políticos. Ultímio sempre espalhou enganos e parece ter lucrado, acumulando alianças e influências. No entanto, ele ali se apresenta frágil, à mercê de uma pobre mão. No tractor comentam vastamente o carro afocinhado, rodas enfronhadas na areia. Mas não param. Ainda há alguns que insistem nos deveres solidários. Mas Fulano Malta é terminante:

Ele que se desenterre – é sua arreganhada sentença.”

O livro, enfim, é poesia pura tratando do indigesto tema da morte e do vazio afetivo das ambiciosas elites. Até virou filme, mas pelo que consta, não agradou.

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