conto do vigário II

Ao postar a bronca contra o sujeito abaixo, lembrei do tempo em que fui repórter policial nesse jornal em Santos e passei uns seis meses na busca dos aplicadores do conto-do-vigário e suas infinitas variações. De certa forma, eram esses embustes e artimanhas que davam alguma graça à minha profissão, que de resto só servia ao embrutecimento da alma.

Sempre entendi as pessoas que vivem desses expedientes como artistas, performáticos, e o que me intrigava era o fato de não usarem esse talento “dentro” do sistema. Seriam chamados empreendedores. Porém, minhas tentativas de entrevistá-los nas raras vezes e no pouco tempo em que ficavam presos sempre resultaram na mesma ladainha.

Não havia jeito de virar o disco, de surpreendê-los com qualquer pergunta ou reflexão. Eles repetiam exaustivamente as histórias de suas miseráveis vidas e o bordão de que não faziam aquilo por gosto, mas por pura necessidade. Eu os via tão possivelmente livres daquele miserê, pelo acréscimo de outros valores em seus repertórios, que não me conformava.

Até que um dia, ao descer da moto no velho centro de Santos, fui abordado por um garoto magro, cabelo ruivo encaracolado, meio avoado – típico caipira – me perguntando onde acharia uma lotérica. Em suas mãos logo vi um bilhete e não acreditei. Eu havia sido premiado com uma performance ao vivo.

bilheteEntrei no jogo fazendo o tipo desentendido desinteressado, a procurar rápido uma lotérica para auxiliar o garoto, com outras coisas importantes por fazer.

Logo apareceu um senhor baixinho – que suspeitei ser o mestre – e a história do bilhete premiado tomou corpo. E nós poderíamos dividir o prêmio, ou eu poderia ficar com tudo em troca de um pequeno adiantamento etc e tal.

Eu queria ver até onde chegaríamos e, devo dizer, fiquei encantado. Pois eles foram comigo até a lotérica e no breve instante em que eu constatava na lista que o número e a data do bilhete conferiam mesmo, eles simplesmente evaporaram.

Pior ou melhor, não sei. Ao rever o bilhete, que seria a prova da história, notei que ele fora trocado, nas minhas mãos, sem que eu percebesse. Fantásticos. Quase bati palma. Ali mesmo, desisti de escrever sobre eles. Isso, há quase trinta anos.

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