um pouco de Pascal

em
A RAZÃO DO CORAÇÃO E O CORAÇÃO DA RAZÃO
por Humberto Mariotti

“Lidar com paradoxos (e não há nada mais paradoxal do que o ser humano e suas sociedades) é coisa de que não gostamos, porque nos confronta com a inevitabilidade da dúvida, da incerteza, da dificuldade de controle. Nossa cultura predominantemente cartesiana, iluminista, nos convenceu de que podemos dominar a natureza, inclusive a nossa própria. E nos forneceu incontáveis instrumentos de auto-engano para manter-nos convencidos disso, mesmo quando somos (como acontece diariamente) postos diante de evidências de que esse domínio está muito longe de ser tão completo quanto desejamos. Com efeito, não tem sido outra a função da chamada “idéia de progresso” da modernidade.

Entre ser sempre fortes ou sempre fracos, optamos ingenuamente pela primeira hipótese: queremos ser sempre fortes, controladores, racionais e “exatos”, mesmo quando tudo à nossa volta nos mostra que somos fortes e fracos — não uma coisa ou outra —, e que há momentos e circunstâncias em que é preciso aceitar o erro, a aleatoriedade e a ambigüidade. Aceitá-los e reconhecer que eles são meios de autoconhecimento, que nos ensinam a tolerância (não confundir com permissividade), a moderação (não confundir com auto-repressão), o senso de ridículo (não confundir com timidez), a firmeza de posições (não confundir com narcisismo) — enfim, a sabedoria de viver, que inclui isso tudo mas a nada disso pode ser reduzida.

Eis uma das grandes descobertas de Pascal: ele mostra que os opostos simultaneamente antagonistas e complementares são parte inalienável da condição humana. Vê em nossa condição a coexistência de grandeza e miséria e entende que a natureza humana corrupta é inseparável da grandeza humana. São condições opostas e complementares. Essa é a tese pascaliana fundamental: a grandeza do homem é sua faculdade de pensar, sua fragilidade é sua miséria.”

Um pensamento sobre “um pouco de Pascal

  1. Um pequeno retrato do pobre homem forte de nossa sociedade:

    “…exibe à frente o coração que não divide com ninguém
    Tem tudo sempre às suas mãos, mas leva a cruz um pouco além, talhando feito um artesão a imagem de um rapaz de bem
    Olha ali quem está pedindo aprovação não sabe nem pra onde ir
    se alguém não aponta a direção
    Periga nunca se encontrar será que ele vai perceber
    que foge sempre do lugar deixando o ódio se esconder…”
    Marcelo Camelo

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