passeio na irrealidade cotidiana

ecoDa prateleira, o livro chama e convida. Abro uma página qualquer, um trecho ainda no início. Umberto Eco apenas afia a ironia que irá guiar a Viagem na Irrealidade Cotidiana, avançando pela neurose reconstrutivista, a preocupação com a verossimilhança, vista nos Museus de Cera dos Estados Unidos, uma representação do próprio país onde “tudo deve ser como na realidade”:

Outra característica do museu de cera é que a noção de realidade histórica aparece muito democratizada: o gabinete de Maria Antonia é feito com extremo cuidado nos detalhes, mas igualmente acurada é a cena do encontro de Alice com o Chapeleiro Maluco.

Quando você vê Tom Sawyer depois de Mozart ou penetra na gruta do Planeta dos Macacos após ter assistido ao Sermão da Montanha com Jesus e os Apóstolos, a distinção lógica entre Mundo Real e Mundos Possíveis foi definitivamente comprometida.

Mesmo que um bom museu, alinhando em média sessenta ou setenta cenas para um conjunto de duzentas ou trezentas personagens, subdivida suas seções, diferenciando o mundo do cinema daquele da religião ou da história, no fim da viagem os sentidos se sobrecarregam de modo acrítico, Lincoln e o Dr. Fausto parecem reconstituídos no mesmo estilo de realismo socialista chinês, e o Pequeno Polegar e Fidel Castro já pertencem agora definitivamente à mesma zona ontológica.

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