cadê o eleitor?

fogos de artificioComparo o processo eleitoral a chegada do ano novo. A virada, meia-noite, é o dia da votação.

Fogos de artifício pipocam nos céus, produzem sons e figuras notáveis, mas o auê vira fumaça e some rapidinho, como político junto ao povo após a eleição.

Friza imagem: figuras de fogos de artifício duram segundos, minutos, enquanto os políticos eleitos legislam, governam e você-sabe-mais-o-quê o país por quatro ou oito anos.

O eleitor, para quem não percebeu, é todo aquele fundo escuro ali, que já está antes e permanece depois da festa, e que permite aparecerem as cores e os brilhos dos fogos ou os risos e as promessas dos políticos.

O eleitor é o céu do país.

skywatching

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o blog em setembro

Todo fim de mês dou uma olhada nas estatísticas do blog para ver os posts mais clicados. Isso não traduz necessariamente os que foram mais lidos: tem o lance de clicar para ver ou escrever comentários, tem aqueles que chegam aqui trazidos pelos sites de busca.

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Vendo estes números, fiquei convencido de que o mundo quer me dizer alguma coisa, mandar-me mensagens, avisos, sinais, tal qual um personagem de Italo Calvino no livro Se um Viajante, que estou relendo.

Claro que fui sugestionado, mas ao separar os doze mais mais da relação, me dei conta que o Revolução dos Bichos – que já foi campeão por aqui durante uns meses – aparece por baixo e Fênix, disparado, voa lá no alto.

Por mais que eu resista, não consigo deixar de ligar esse sinal com as eleições de amanhã. Embora um renascer de qualquer coisa pareça extremamente remoto, improvável mesmo, nunca se sabe.

pnud: fórum sobre reforma política

Outra coisa que ando coletando são boas conversas sobre reforma política. Se você souber de alguma avisa aê. A necessidade de passar por essa virada é gritante, mas são poucas as pessoas interessadas que realmente contribuem e menos ainda os lugares que organizam o material todo com eficiência. Pena. Os políticos oficiais já vão novamente se apropriando do discurso e das manobras para que as reformas melhorem as coisas mais uma vez para eles mesmos.

pnud brasilEnfim, no site do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) achei um fórum com idéias interessantes. Não li tudo ainda, minha medida de qualidade tomei com o tema Voto Obrigatório.

Os argumentos a favor defendidos pelo partícipe Bruno Reis foram tão claros que quase me fizeram mudar de idéia. É disso que gosto e chamo qualidade. Dá uma olhada:

[…] Sob o regime do voto facultativo, de saída o problema de fazer o eleitor comparecer (ou não) se torna uma variável estratégica fundamental – propensa, naturalmente, a ser instrumentalizada com maior eficácia pelos grupos com maiores recursos. Portanto, não há razão para presumirmos que o voto facultativo reduza o peso da prática de influências espúrias vindas “de cima” – muito pelo contrário.

E o mais grave: obstáculos e intimidações de toda sorte poderiam facilmente ser antepostos no caminho do eleitor quando por acaso interessasse a algum poderoso local o seu não-comparecimento. Dependendo do contexto, o mero ato de comparecer para votar pode ser facilmente carimbado como provocação. […]

o nobel alternativo

chico whitakerO brasileiro Francisco Whitaker Ferreira é o ganhador do Roll of Honour (prêmio de honra) da edição 2006 do Right Livelihood Award. Nunca ouviu falar desse prêmio? Será que ele tem importância no cenário mundial?

Bom, eu também não conhecia e fui atrás de saber. Depois de ver sua proposta e critérios de premiação, deu para entender porque ele não frequenta a grande mídia.

O Right Livelihood Award existe desde 1980 como uma espécie de contraponto ao badalado Prêmio Nobel. Também é organizado por uma instituição sueca e visa destacar pessoas que desenvolvam soluções práticas e exemplares para as necessárias e urgentes transformações do mundo. O nome tem inspiração budista e significa o “Correto Viver”.

Os organizadores do Right Livelihood entendem que o Prêmio Nobel representa um modo de segmentar o conhecimento e a ação humana em disciplinas estanques, conforme a visão predominantemente racionalista e machista do século XX (apenas 33 mulheres receberam o Nobel, entre 758 premiados).

Assim, o Right Livelihood foi instituído com um enfoque multidisciplinar, mais adequado para tratar as complexas questões do século XXI. Só que isso ainda não foi devidamente deglutido pela grande imprensa e agências noticiosas que também funcionam no paradigma anterior (funcionam é modo de dizer). E, lógico, como o prêmio é dirigido a ativistas sociais que muitas vezes confrontam interesses de grandes corporações e de governos, difícil ganhar espaços de divulgação.

Outros dois brasileiros ativistas comprometidos com as transformações sociais e ambientais já haviam recebido a honraria anteriormente. O agrônomo gaúcho José Lutzenberger, em 1988, e o teólogo catarinense Leonardo Boff, em 2001.

Brasileiro ou internacional?

A par das atividades de organização do Fórum Social Mundial, que o colocam em constantes viagens e complexas negociações mundo afora, Chico Whitaker mantém firme ligação com vários movimentos sociais no Brasil. Alguns são ligados à Igreja Cristã, como a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), outras não, como a Ação Brasileira de Combate à Desigualdade (ABCD), a Rede de Reflexão e Ação Política Livre (Repolítica) e o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE).

Chico desfiliou-se do PT no primeiro dia deste ano e agora está empenhado em aprofundar os debates sobre a Refundação do Legislativo, que seguramente nada tem a ver com as refundações do PT ou PSDB.

Posts anteriores sobre o trabalho e pensamento de Chico Whitaker:

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e eu com isso?

Acabei de saber que a globo apresentou a série e eu com isso? nos fantásticos dos últimos domingos. Gostaria de ter visto porque, segundo soube, abordaram um movimento do qual faço parte, de combate à corrupção eleitoral, e essa notícia mexeu com a monotonia dos meus dias. Minha função no MCCE é responder e-mails e houve um pequeno acrécimo no fluxo.

e eu com isso?Mas o que eu queria comentar é que no Globo Media Center, chamado unilateralmente de “sua tevê interativa na internet”, aonde caí na esperança de assistir as mencionadas matérias do fantástico, tem lá o antigo *exclusivo para clientes*.

O padrão global de interatividade realmente não dá, é coisa travada, passada. O que vai acontecer se eles dominarem os espaços na tevê digital (até aqui estão bem na trama política – essa que ninguém mais aguenta) é que nem vou gastar minha grana num aparelho novo.

Se bem que duvido possa a globo seguir assim dona da bola indefinidamente com esse tacanho entendimento de “interatividade”. Poderia até indicar aos senhores globais a leitura deste post cafeinado, assim como quem não quer nada, só assitir aos programas livremente. Aliás, só aquele.

processo do voto: sabe como é?

Matéria da G1, leia-se Globo, acrítica, igualzinha ao release do TRE:

O presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, desembargador Roberto Wider, esteve na manhã desta terça-feira (19) no pólo de inseminação das urnas do bairro da Saúde, para oficializar o início da preparação das urnas eletrônicas que vão ser usadas nas próximas eleições. Os partidos políticos, apesar de convocados, não enviaram representantes para fiscalizar o início da inseminação.

Segundo Wider, isso é a prova maior de que as urnas eleitorais já alcançaram a confiança de quem compreende como o processo é feito. “Só mesmo quem não sabe como as urnas funcionam desconfia do sistema”, disse o presidente do TRE.

Pois é, mané, eu desconfio mesmo porque além de ‘não compreender como o processo é feito’, sou mantido longe desse saber. A fala do presidente do TRE-RJ, além de aumentar minhas razões para desconfiar, ainda as legitima. Grato.

ja eraQuerer saber se meu voto terá o destino pretendido nada tem de anti-democrático, ao contrário, é um ato de participação saudável e consequente numa democracia frágil com instituições justificadamente desacreditadas.

Meu diagnóstico para a ausência de fiscais dos partidos durante a inseminação das urnas difere do presidente do TRE-RJ. É prova maior de que o conhecimento sobre as urnas está num nível tão baixo que raríssimos podem questionar. Para os Tribunais é bom porque enche menos o saco. Problema é que para os fraudadores de sempre e de qualquer sistema também é bom: o controle restrito e com difícil investigação facilita seu trabalho.