sorriso que bate nas olheiras

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,

Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.

Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.

Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;

Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

“Elevação”, Charles Baudelaire.

cala boca já morreu

Em resposta ao extemporâneo colonizador el Rei de Espanha.

PORQUE NO TE CALAS?

Raul Longo

 

Porque no te calas, Dom?

Nem te envergonhas das civilizações

que exterminastes?

Incas, Maias e Astecas…

Sabedorias acima da alguma

que mal soubeste herdar dos 8 séculos

de pacientes mestres árabes.

 

Nada aprendes!

 

Porque não te calas, Senhor?

Nem te arrependes dos tantos de mim

que espoliastes da Patagônia à Califórnia?

 

Pirata, mercenário, usurpador:

acaso não te acordas

das tantas que estupraste?

Da gente que seviciaste?

 

Pelos povos que usurpaste

em América,

Ásia, África,

porque não te calas?

 

A quem te arrogas,

se sequer és dotado da galantaria

que a Quixote serviu?

 

Que ficção é essa

que crias para ti,

reizete de merda?

 

De Guernica

és o lado que o Mestre

sequer retratou,

pois se nunca estiveste

no desespero de tua

própria gente,

por quem te crês?

 

Cala-te e

devolve minha prata,

reponha meu ouro

bucaneiro arrogante!

 

Cala-te e

reconheça tua insignificância

que de majestosa só tem

a expressão da falência

de uma instituição anacrônica,

tardia em minha história.

 

A quantos ainda crês

como teus súditos?

Aqui nada és além de mero decorativo,

ridícula memória da vergonha

de um império há muito falido.

 

Porque não te calas, hombre?


estirpe

Os mendigos maiores não dizem mais, nem fazem nada. Sabem que é inútil e exaustivo. Deixam-se estar. Deixam-se estar. Deixam-se estar ao sol e à chuva, com o mesmo ar de completa coragem, longe do corpo que fica em qualquer lugar.

Entretêm-se a estender a vida pelo pensamento. Se alguém falar, sua voz foge como um pássaro que cai. E é de tal modo imprevista, desnecessária e surpreendente que, para a ouvirem bem, talvez gemessem algum ai.

Oh! não gemiam, não… Os mendigos maiores são todos estóicos. Puseram sua miséria junto aos jardins do mundo feliz mas não querem que, do outro lado, tenham notícia da estranha sorte que anda por eles como um rio num país.

Os mendigos maiores vivem fora da vida: fizeram-se excluídos. Abriram sonos e silencios e espaços nus, em redor de si. Tem seu reino vazio, de altas estrelas que não cobiçam. Seu olhar não olha mais, e sua boca não chama nem ri. E seu corpo não sofre nem goza. E sua mão não toma nem pede. E seu coração é uma coisa que, se existiu, já esqueceu.

Ah! os mendigos são um povo que se vai convertendo em pedra. Esse povo é que é o meu.

[ Cecília Meirelles ]

aula de português

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas da minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.


Carlos Drummond de Andrade
Obra Poética, 7º Volume

embebedai-vos

(XXXIII) – Charles Baudelaire

baudelaireÉ preciso estar-se, sempre, bêbado. Tudo está lá, eis a única questão. Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos.

E se, às vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a grama verde de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que passa, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de embebedar-vos! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embebedai-vos, embebedai-vos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude: a escolha é vossa.”

Pequenos poemas em prosa, Record, 2006, tradução de Gilson Maurity. Achado no Calíope.